“Dizem que os acadêmicos e os intelectuais devem ser neutros, mas não existe neutralidade no pensamento.”

Florestan Fernandes

22.7.09

CAMISA DE FORÇA

A vida é uma estrada
um caminho que te engole
está presa dentro da alma cortante de uma camisa de força
minhas asas sangram tentando rasgar o tecido grosso dessa roupa
nado com os membros presos ao corpo
nesse mar de vácuo do meu Eu
labirinto sem entrada e sem saída
agonizo em meu superego
meu sol é pálido
consola mantendo-me aquecida
durmo antes que anoiteça
a lua me persegue
é minha
um dia ganhei...
Cléo Dias

7.7.09

Pura Prosa

A espera era mais uma gota de suor. Transformou o tempo. Caminhava céu e terra procurando. Adormecia mares e oceanos. E o olhar era o mesmo, era deserto e estrada de ferro e o tempo era um trem; e a vida era o cheiro, um canto esquecido dentro do silêncio, puro e doloroso. Corria como o pensamento. Dormia e despertava noite e dia em seu livro. Dizia através das lágrimas.Vivia através do vento, nas nuvens descansava. Os olhos empoeirados respiravam angústia. Caminhava sob a água e sob o sol. Trazia o vazio nos olhos, pendurava a culpa no pescoço e os braços, livres, davam socos no ar. O mundo era apenas um detalhe. Tinha seu próprio mundinho e nele a esperança era azul, mas também era triste, franzina. Era tudo o que existia. Um dia o céu se abriu, o mar se abriu, o tempo virou pó. Ainda esperava mais uma gota de suor, de lágrima, de nada. Presente por todo o espaço, o oráculo na estrada era mudo, era tempo, senhor, mestre, ancião, sábio e sóbrio. Ainda procurava caminhando, o tempo em seu deserto, em seu espelho, toda sua esperança, todo seu desejo; Aquele vazio, aquele espaço. Todo o silêncio, toda canção, era real, tocável; Era seu, tudo aquilo que pensava existir.