“Dizem que os acadêmicos e os intelectuais devem ser neutros, mas não existe neutralidade no pensamento.”

Florestan Fernandes

19.6.10

MÁSKARA

tenho uma máskara!
uma máskara perfeita
mas ainda preciso libertá-la
ainda preciso libertá-la de mim
tenho uma máskara perfeita!
que ainda preciso queimar
que ainda preciso apagar
que ainda preciso...
preciso...
tenho uma mákara perfeita
que ainda eu...
quero usar...
tenho uma máskara!
uma máskara perfeita
mas ainda vejo um resquício
ainda vejo um resquício de dor
tenho uma máskara!
uma máskara perfeita
e ainda assim sinto um resquício
ainda assim sinto um resquício de amor
tenho uma máskara!
uma máskara perfeita
ainda posso vê-la no espelho
ainda vejo no espelho
a máskara perfeita
de meus sonhos e alegrias imaginárias.

Doce vinho quente

Da vida, o beijo amargo virou doce.
Dicionário de palavras estranhas
cujos significados meus desconhecidos
melodia da vida,
doce vinho quente
amargo e frio,
de estar acordado.
Seu respiro unta meu caminho e eu deslizo.
Pela ausência você existe onde eu possa te encontrar
Distante,
posso sentir o cheiro que me deste sem saber que existia
Sem saber que eu queria
Sem saber que eu pedia
É todo motivação
O sono, seu companheiro
meu cúmplice da eterna contemplação
de beijos suaves e solitários.
É minha fonte e alimento, meu teto e paredes
É paixão ardente
Meu amigo
Meu rio caudaloso sem destino.
Corre pelas veias
Vicia.

15.6.10

MARY

MARY era o bastante subindo a rua,
toda deslumbrante
mary tentou
seguindo a estrada
mary vai sorrindo
toda louca
e lágrimas nas mãos
Mary não vê a multidão
Mary chora, ri, anda
ninguém vê
mas todos sabem
Mary
sobe a dor
pula a vida
caminha sob o tempo
um dia vai perder
um dia vai sentir
um dia vai arder
ela vai ficar
sempre fica
todos passam
todos se vão
Mary fica
sempre fica.

Cléo Dais

14.6.10

PESSOAS E PALAVRAS

Palavras são pessoas querendo falar.
Pessoas são palavras que se movem sozinhas.

Cléo Dais

12.6.10

O ASSASSINATO DAS MIGALHAS

Não somos uma pomba!
Eu não sou uma pomba. Uma maldita pomba.
Pobre pomba.
Maldita não é a pomba.
Talvez nós sejamos os malditos.
De uma coisa estou certa: eu não sou uma pomba.
Fui até varanda. Precisava de uma. Precisava observar a maldita pomba, deter cada detalhe, cada diferença entre Ela e Eu. E ter certeza de que eu não era uma pomba.
Haviam muitas pombas todos os dias no meu e nos prédios ao lado. Em todo lugar. Nas estátuas, nas colunas, grades.
Como uma doença infecciosa que se espalha rapidamente. Isso mesmo; a maldita era uma doença.
Sim contagiosa. Comiam tudo que conseguiam enxergar. Todo o resto do homem. Não. Todo o resto do lixo do homem.
Comiam o resto de tudo aquilo que o homem não queria. Resto. Restos.
Uma pousou no parapeito e pude ver: asquerosa, curiosa e faminta, a pomba me olhava. Sem engano me olhava sim.
Desceu até o chão, achei que ia embora quando bateu as asas, mas caminhou até mim parecendo um pinguim. Fiquei parada, nesse momento revolvia em mim sensações que depois relembrando o que acontecera não pude definir: angústia, raiva, dor, nojo, não sei dizer.
Ela parou de andar, soltei o ar que tinha prendido, fiquei tonta, tinha segurado por pouco tempo, mas fora o suficiente para ver o mundo rodando como numa roda gigante.
Ainda tive força para gritar: Eu não sou voce! Não quero suas migalhas fartas, espalhadas, sólidas e estáticas, tão frias e mudas, tão desnudas do que possa sentir. Migalhas, migalha. São muitas pro meu meu pouco e poucas pro meu corpo.
Voou. As vezes é necessário. Tenho voado sempre. Nunca apareço. Nem resolvo. Não é necessário fazer conjunturas.
Deixar-se repetir? Balela! Deixar-se repetir o engano? A frustração?
Está certo. Não me esquecerei de nunhum decassílabo. Mas não vou repetir as migalhas. Qualquer que seja.
Por que me recordo bem dos detalhes, das diferenças.
Primeiro não nos reconhecemos mais.
Depois percebemos que nos tornamos pomba. Em seguida nos deixam comer os seus restos. As migalhas.
Não há nada tão simbólico, tão significativo. Mas, fazemos escolhas. O tempo todo. O tempo todo.
Mas afinal, o que é o tempo para uma pomba maldita?
Somos grandes construtores.Construimos muitas coisas. Boas e muito ruins:
o concreto, as armas, os eletrodomésticos, a internet, a guerra, o amor, a roda, a guerra, de novo, e de novo.
E tudo o que fazemos não significa nada perto da grandiosidade do mundo, tão independente de nós. Mas ainda assim precisamos fazer. Façamos. Não como uma pomba. Não com migalhas, mas façamos.
Assassinemos as migalhas.

Cléo Dais